Impacto psicológico no acompanhamento médico de mulheres mastectomizadas, com Raquel Ayres de Almeida

Impacto psicológico no acompanhamento médico de mulheres mastectomizadas, com Raquel Ayres de Almeida

 

 

 Para uma mulher, o desenvolvimento do câncer de mama é transtorno que ultrapassa a esfera meramente física, refletindo-se diretamente em suas faculdades psicológicas. A mastectomia, por tirar da mulher um órgão que tem relação direta com a sua percepção de sexualidade e feminilidade, pode ter impactos devastadores para sua saúde mental. A partir de depoimentos de 13 mulheres mastectomizadas atendidas em um hospital público de Teresina, o artigo “Os sentimentos das mulheres pós-mastectomizadas”, publicado ano passado na revista Escola Anna Nery, percebeu que mulheres nessa situação expressam sentimentos de “frustração, desânimo, vergonha e desvalorização da autoimagem do próprio corpo, além da não aceitação da condição atual e alterações na sexualidade”, o que prejudica sua autoestima e pode levar a problemas como ansiedade e depressão. Raquel Ayres de Almeida é psicóloga especialista em psicologia clínica e hospitalar pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e tem trabalhos publicados sobre o tema mastectomia. Na entrevista concedida ao PROAGO, a especialista explica quais os sentimentos comuns de mulheres com câncer de mama e sublinha a importância de a equipe médica contar com o psicólogo para acompanhamento do emocional de mulheres mastectomizadas, entre outras considerações.

PROAGO – Que impactos na psicologia da mulher a realidade de sofrer câncer de mama representa?

Raquel Ayres de Almeida – O diagnóstico de câncer de mama é uma notícia devastadora, causando forte impacto na vida das pessoas. A paciente e sua família são inundadas por emoções como sofrimento, medo, raiva, angústia e ansiedade, além de prejuízos nas habilidades sociais, funcionais e vocacionais. O impacto do diagnóstico pode causar transtornos afetivos e provocar um afunilamento no campo perceptivo da mulher, tendo esta sua atenção voltada somente para a doença e suas conseqüências, reais ou fantasiadas, afetando seriamente seu cotidiano. Além dessas preocupações, o câncer de mama produz efeitos negativos na autoestima e autoimagem.

PROAGO – É bem documentado na literatura médica que a vivência do câncer é algo que passa das meras conseqüências físicas, afetando também competências subjetivas. Apesar disso, registros de atendimentos médicos que não contemplem todos os aspectos da doença ainda são comuns. A que a senhora acha que se deve este padrão?

Raquel Ayres de Almeida – Há uma corrente dentro da medicina que pensa o câncer como uma enfermidade apenas do corpo. Essa corrente ainda é muito poderosa e atuante. Caso depressão e ansiedade sejam diagnosticados no quadro clínico da paciente, os psiquiatras desta corrente tratam com medicamentos, não valorizando o apoio psicoterápico. Atualmente, percebe-se uma maior inserção do psicólogo na área da saúde, porém, muitas conquistas ainda podem ser feitas buscando uma maior integração entre os diversos profissionais deste setor.

PROAGO – O que a mastectomia representa para uma mulher? O que muda na vida de uma mulher que tem que aprender a viver com esta nova realidade, mesmo que por pouco tempo?

Raquel Ayres de Almeida – Os primeiros meses de reabilitação de uma mastectomia são caracterizados pelo movimento de reorganização, para uma reinserção no mundo individual, social e espacial, visto que a mutilação decorrente favorece o surgimento de muitas questões na vida das mulheres, especialmente aquelas relacionadas à imagem corporal. A forma como a mulher percebe e lida com essa nova imagem e como isso afeta sua existência são pontos cruciais para um entendimento da nova dinâmica que a vida dessas mulheres assume. No período pós-operatório da mastectomia, a mulher pode vir a apresentar uma série de dificuldades ao reassumir a sua vida profissional, social, familiar e sexual, visto que ela, em geral, sente dificuldade em lidar com o próprio corpo. Estudos relacionados às consequências desse tipo de tratamento demonstram que a presença da depressão após a cirurgia na mama é uma resposta emocional comum.

PROAGO – Como é possível garantir um acompanhamento médico que ajude a mulher a superar todos os conflitos e recaídas do ponto de vista psicológico que podem surgir na pós-mastectomia?

Raquel Ayres de Almeida – É imprescindível a formação de uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogos e médicos, para que, juntos proporcionem à mulher com câncer de mama um atendimento humanitário, completo, promovendo assim o restabelecimento da saúde em seu sentido mais amplo. A atuação do psicólogo para dar suporte à paciente e a seus familiares nesse momento é fundamental. Esse profissional vai ajudar a mulher a manter o seu bem-estar psicológico durante o tratamento. Vários estudos referentes ao câncer de mama comprovam que pacientes que participam de atendimento psicológico possuem um melhor ajustamento à doença, redução dos distúrbios emocionais (como ansiedade e depressão), melhor adesão ao tratamento e diminuição dos sintomas adversos associados ao câncer e aos tratamentos, podendo até obter um aumento no tempo de sobrevida.

PROAGO – A senhora participou por um ano de projeto de pesquisa intitulado ”Impacto da Mastectomia na Vida da Mulher com Câncer de Mama”. Como foi a dinâmica do trabalho? Quais as principais conclusões?

Raquel Ayres de Almeida – Este estudo foi realizado através de uma revisão de literatura e se dedicou a promover o conhecimento a respeito do impacto da mastectomia na vida da mulher. Para isso, foram investigadas as possíveis modificações ocorridas na vida dessas mulheres no que se refere às repercussões psicológicas, relacionamento familiar, funcionamento social, imagem corporal e sexualidade, qualidade de vida e a possibilidade da reconstrução da mama. A literatura indica que o relacionamento familiar exerce um papel primordial na vida destas mulheres, funcionando como apoio e ajuda para suportarem melhor o diagnóstico e suas consequências.

A mutilação da mama, um órgão característico da feminilidade, resulta na alteração negativa da imagem corporal, representando uma limitação estética e funcional que pode trazer prejuízo na satisfação sexual. Porém, a qualidade dos relacionamentos afetivos das mulheres com seus parceiros, antes do diagnóstico da doença, parece ser um fator de forte influência na qualidade de vida entre o casal após o diagnóstico e mutilação. As relações sociais são profundamente abaladas, já que o constrangimento de estar com uma doença estigmatizante leva a mulher a se afastar do seu convívio social. Foi observado ainda que a reconstrução da mama preserva a autoimagem da mulher, e, portanto, proporciona um processo de reabilitação menos traumático.

 

Entrevista concedida ao 

 

Programa de Atualização em Ginecologia e Obstetrícia (PROAGO): http://www.semcad.com.br/programa.asp?prog=10