ADESÃO AO TRATAMENTO DE DOENÇAS CRÔNICAS

 

Raquel Ayres de Almeida

 

INTRODUÇÃO

 

A Organização Mundial de Saúde (World Health Organization -WHO, 2011b) afirma que as doenças crônicas são as principais causas de morte, sendo responsáveis por 60% de todas as mortes ocorridas no mundo. Fatores de risco comuns e potencialmente modificáveis como ausência de uma dieta saudável, sedentarismo e uso de cigarro explicam a maior parte destas mortes.

O desenvolvimento industrial e urbano e as mudanças no estilo de vida das pessoas influenciaram diretamente na sua saúde e na probabilidade de desenvolverem doenças crônicas. O aumento da incidência e da prevalência das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) está associada ao aumento do número de idosos, crescimento da expectativa de vida das populações, queda da mortalidade e da fecundidade, alteração das dietas alimentares, aumento dos hábitos sedentários, crescimento do consumo de tabaco, entre outros.

Nas últimas décadas no Brasil, as DCNT passaram a determinar a maioria das causas de óbito e incapacidade prematura – ultrapassando as taxas de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias – e a representar uma grande parcela das despesas com assistência hospitalar no SUS e no Setor Suplementar.

A adesão ao tratamento é fundamental para o gerenciamento de uma doença crônica. Dessa forma, para o efetivo controle de uma doença crônica, é preciso seguir todas as orientações médicas, como tomar a medicação, seguir a dieta e/ ou mudar seu estilo de vida. Apesar da importância de aderir ao tratamento, é comum os pacientes não o fazerem. A OMS reconhece que muitos pacientes têm dificuldade em seguir o tratamento recomendado e refere que a baixa adesão é um problema mundial.

A baixa adesão pode ser encontrada tanto em doenças agudas quanto em doenças crônicas, sendo mais frequente em tratamentos longos, e aumenta o número de recidivas ou recaídas que podem ocorrer durante o tratamento.  A não adesão pode levar a complicações médicas e psicossociais para os pacientes e desperdício de recursos dos sistemas de saúde.

Existem muitas variáveis determinantes do grau de adesão do paciente ao tratamento. Dentre as variáveis citadas por alguns autores podemos encontrar a relação entre o profissional de saúde e o paciente, o regime terapêutico, as características da enfermidade e aspectos psicossociais do paciente.

Diante desse cenário, é necessário o desenvolvimento de ações que visem uma maior adesão ao tratamento médico, reduzindo o impacto dessas doenças e promovendo um maior controle das DCNT e dos seus fatores de risco.

    

DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA

 

As maneiras como os indivíduos e as coletividades organizam suas vidas e elegem determinados modos de viver são modificadas pelas transformações econômicas, políticas, sociais e culturais produzidas pelas sociedades humanas ao longo do tempo. Tais mudanças interferem no acesso das populações às condições de vida mais favoráveis à saúde e, portanto, repercutem diretamente na alteração dos padrões de adoecimento (Brasil, 2008).

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são consideradas como uma epidemia na atualidade e constituem sério problema de saúde pública, tanto nos países ricos quanto nos de média e baixa renda (Brasil, 2008). São doenças com desenvolvimento lento, que duram períodos extensos – mais de 6 meses – e apresentam efeitos de longo prazo, difíceis de prever. A maioria dessas doenças não tem cura, como diabetes, asma, doença de Alzheimer e hipertensão. Entretanto, várias delas podem ser prevenidas ou controladas por meio da detecção precoce, mudanças no estilo de vida e acesso a tratamento adequado recomendado pelo profissional de saúde (WHO, 2011a).

Segundo o Ministério da Saúde, as DCNT são doenças multifatoriais que têm em comum fatores comportamentais de risco modificáveis e não modificáveis. Dentre os fatores comportamentais de risco modificáveis destacam-se o tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, a obesidade, as dislipidemias, ausência de uma dieta saudável e o sedentarismo (Brasil, 2011b).

Estimativas da Organização Mundial de Saúde - OMS (Brasil, 2009) mostram que as DCNTs são responsáveis por 58,5% de todas as mortes ocorridas no mundo e por 45,9% da carga global de doenças. No Brasil, em 2008 as DCNT responderam por 62,8% do total das mortes por causa conhecida e, séries históricas de estatísticas de mortalidade disponíveis para as capitais dos estados brasileiros indicam que a proporção de mortes por DCNT aumentou em mais de três vezes entre as décadas de 30 e de 90 (Brasil, 2009, 2011).

A OMS (WHO, 2005) define como doenças crônicas as doenças cardiovasculares (cerebrovasculares, isquêmicas), as neoplasias, as doenças respiratórias crônicas, a diabetes mellitus, as desordens mentais e neurológicas, as doenças bucais, ósseas e articulares, as desordens genéticas e as patologias oculares e auditivas. Considera-se que todas elas requerem contínua atenção e esforços de um grande conjunto de equipamentos de políticas públicas e das pessoas em geral.

O paciente diagnosticado com uma doença crônica precisa mudar sua rotina passando a incorporar e manter novos comportamentos, como dieta alimentar balanceada, atividade física e uso permanente de medicamentos. O controle da doença crônica depende de um tratamento complexo e trabalhoso, com exigências diárias contínuas, o que gera grande impacto na vida cotidiana do paciente, podendo resultar em baixos níveis de adesão (Malerbi, 2000).  

Segundo a OMS (WHO, 2003), a adesão ao tratamento (também chamada de aderência por alguns autores) é uma ferramenta fundamental para o gerenciamento de doenças crônicas. Os benefícios da adesão ao tratamento se estendem aos pacientes, às famílias, aos sistemas de saúde e à economia dos países. O paciente passa a ter a sua condição controlada, podendo, na maioria das vezes, manter uma vida normal e economicamente ativa; a família pode se dedicar a outras atividades e deixar de lado seu papel de cuidadora; o sistema de saúde economiza com a redução de internações emergenciais e intervenções cirúrgicas e a economia ganha com o aumento da produtividade.

Contudo, em muitos casos os pacientes não aderem a recomendação médica. A OMS (WHO, 2003) admite que os pacientes têm dificuldade em seguir o tratamento recomendado e que a baixa adesão ao tratamento de doenças crônicas é um problema mundial de magnitude impressionante. Ainda segundo a OMS, nos países desenvolvidos, a média de adesão entre os pacientes que sofrem de doenças crônicas é apenas 50% e a magnitude da baixa adesão em países em desenvolvimento é ainda maior, dada a escassez de recursos para a saúde e as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde.

O termo adesão está associado à obediência do paciente às prescrições de tratamento feitas pelo médico. Haynes, em 1979, definiu a adesão como a extensão com a qual o comportamento de uma pessoa (paciente ou cuidador) coincide com a orientação do profissional, em geral o médico.  A OMS, em 2003, propôs um conceito de adesão que atribui um papel mais ativo ao paciente, tanto no planejamento quanto na execução de seu tratamento: “(...) extensão com a qual o comportamento de uma pessoa, tomando medicação, seguindo uma dieta e/ou executando mudanças no estilo de vida, corresponde às orientações acordadas com a equipe de saúde” (p.03). Dessa forma, a OMS afirma que a adesão engloba numerosos comportamentos relacionados à saúde, que vão além de tomar a medicação prescrita.  

Para a OMS (WHO, 2003), a adesão é um complexo processo comportamental determinado por múltiplos fatores, que incluem atributos do paciente, o ambiente do paciente (suporte social, características do sistema de saúde, funcionamento da equipe de saúde, disponibilidade e acessibilidade aos recursos dos cuidados de saúde) e as características da doença em questão e seu tratamento.

Straub (2005) afirma que adesão é uma atitude e um comportamento. Como atitude, acarreta a disposição de seguir conselhos de saúde e, como comportamento, está relacionada a cumprir realmente as recomendações. Segundo o autor, a não adesão seria uma recusa a aderir às instruções ou a falta de esforço prolongado ao seguir um regime de tratamento.  

De acordo com a OMS (WHO, 2003), o risco de baixa adesão aumenta com a duração e a complexidade dos regimes de tratamento e tratamentos de longa duração e complexos são inerentes às doenças crônicas.

Sabe-se que o impacto de doenças crônicas em muitos países está crescendo continuamente. É importante que as doenças crônicas sejam compreendidas e que se tomem atitudes em relação a elas urgentemente (WHO, 2005). Para compreender e lidar com o comportamento de não adesão é necessário, primeiramente, compreender as variáveis comportamentais passíveis de intervenção e, então, montar um plano de intervenção adequado à demanda.

 

REFERÊNCIAS

 

Brasil. (2008). Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância à Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes e recomendações para o cuidado integral de doenças crônicas não-transmissíveis: promoção da saúde, vigilância, prevenção e assistência. Brasília: Ministério da Saúde.

Brasil. (2009). Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância à Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Vigitel Brasil 2007: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde.

Brasil. (2011a). Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Coordenação Nacional de Hipertensão e Diabetes. Acesso em 15/08/2011. Disponível em http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/publicacao_janeiro_21_01_2011.pdf

Brasil. (2011b). Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Vigilância de Doenças Crônicas Não Transmissíveis. Acesso em 15/08/2011. Disponível em http://portal.saude.gov.br/portal/saude/profissional/visualizar_texto.cfm?idtxt=31877&janela=1

Haynes RB, et al. (1979). Determinants of compliance: the disease and the mechanics of treatment. In: Haynes RB, Taylor DW, Sackett DL, eds. Compliance in Health Care. pp. 49-62. Baltimore: Johns Hopkins University Press.

Malerbi, F. E. K. (2000). Adesão ao Tratamento. In R. R. Kerbauy. (org). Sobre comportamento e cognição: Vol. 5. Conceitos, pesquisa e aplicação, a ênfase no ensinar, na emoção e no questionamento clínico. (pp. 144-151). São Paulo: Esetec.

Straub, R. O. (2005). Permanecendo Saudável. In R. O. Straub. Psicologia da Saúde. Porto Alegre: Artmed.

World Health Organization. (2003). Adherence to long-term therapies: evidence for action. Acesso em 15/08/2011. Disponível em http://www.who.int/chp/knowledge/publications/adherence_full_report.pdf

World Health Organization. (2005). Preventing Chronic Diseases a vital investments. Acesso em 15/08/2011. Disponível em http://www.who.int/chp/chronic_disease_report/full_report.pdf

World Health Organization. (2011a). Chronic diseases. Acesso em 15/08/2011. Disponível em http://www.who.int/topics/chronic_diseases/en/

World Health Organization. (2011b). Chronic diseases and health promotion. Acesso em 15/08/2011. Disponível em http://www.who.int/chp/en/index.html