Fontes Internas de Stress: Uma Abordagem Cognitiva

 Marilda Emmanuel Novaes Lipp

 

O stress emocional tem etiologia complexa e diversificada que inclui desde fatores externos criadores de tensões patológicas, como fontes internas capazes de atuarem como geradores contínuos de estados tencionais significativos. Os fatores externos são de fácil percepção e entendimento. No entanto, condições internas, ligadas à diátese da personalidade, são de difícil auto-percepção, requerendo a intervenção de profissionais da área da saúde mental.

Inúmeras são as fontes internas de stress, salientando-se em nossa experiência clinica de 20 anos no tratamento do stress emocional algumas que mais freqüentemente aparecem relacionadas com altos níveis de stress. Dentre elas, sobressaem-se:
(1) a ansiedade enquanto traço de personalidade, denotando um estado constante de apreensão frente ao mundo e suas situações desafiadoras;
(2) o pessimismo caracterizado por uma ótica focalizada no lado negativo e perigoso dos eventos da vida;
(3) os pensamentos disfuncionais que levam à formulação de premissas errôneas quanto à vida e aos outros e que moldam a busca de evidencias para corroboração dessas premissas enviesadas;
(4) o padrão de comportamentos caracterizados pela pressa, a competição e hostilidade como modo típico de atuação na vida;
(5) a falta de assertividade caracterizada pela síndrome do "nunca dizer não" e as vulnerabilidades psicológicas adquiridas através de práticas parentais inadequadas associadas às vulnerabilidades biológicas. Todas estas características tendem a gerar um estado de tensão crônico, freqüentemente associado a conseqüências físicas e psicológicas.

A situação de um paciente, Sr. X, é exemplo de stress auto-produzido que ocorre com freqüência.

Gerente de uma grande empresa, ele é competente e capaz, rápido em suas decisões e em seus movimentos. Engaja-se em dois ou mais projetos ao mesmo tempo. Nunca está parado descansando. É agitado e agita todos ao seu redor. Ele diz "por quê é tão fácil para os outros dizer não, não aceitar certas responsabilidades e para mim é tão difícil?". Apesar do seu sucesso profissional, tem dificuldades em ter amigos, sua esposa e filhos reclamam que quase não tem muito contato diário com eles porque, como ele diz, "não dá tempo". Embora não queira admitir precisar de ajuda, o exame médico do Sr. X revelou que está hipertenso, que tem problema de retração de gengiva e apresenta um pouco de gastrite. Mas tudo isto ele acha que não é nada, pensa consigo mesmo que qualquer dia vai marcar um horário com um especialista. O Sr. X, às vezes, apresenta taquicardia e sente ansiedade quando vê que os funcionários tem dificuldade de atenderem aos prazos que estabeleceu. Nestas situações, acaba explodindo e demonstrando o seu desagrado de modo que chega a ser um pouco hostil. A tensão muscular é muito grande e caminha, sem perceber, com os ombros levantados colocando mais tensão ainda na nuca. Todos esses sintomas são típicos de uma situação de stress patogênico ou excessivo. A dificuldade primordial, de acordo com a opinião dele, é não conseguir desligar das preocupações do trabalho, não conseguir parar e não conseguir elos afetivos profundos e satisfatórios. O Sr. X tem aspectos mecanicistas. É uma excelente máquina do trabalho empresarial, a qual rende lucro para a empresa, lhe traz sucesso, dinheiro e respeitabilidade. Só lhe falta ser feliz e permanecer vivo.

As vulnerabilidades enquanto fontes internas de stress emocional

São inúmeras as vulnerabilidades. Algumas parecem ser parte da constituição genética de algumas pessoas, outras parecem ser adquiridas e há, ainda outras, que são o produto da predisposição genética do que se chama de diátese constitucional, interagindo com práticas parentais menos do que ideais. Independente da causa, sempre é possível aliviar sua intensidade e criar no ser humano uma resistência ao stress emocional. A resistência ao stress, que, por outro lado, pode já ser parte da pessoa ao nascer, também é passível de ser aprendida através da aquisição de técnicas de manejo do stress. No quadro a seguir, ilustramos 12 das vulnerabilidades que identificamos em pacientes estressados. Cada uma delas funciona como uma fábrica interna e constante de stress emocional e porque fazem parte do próprio "eu", elas acompanham a pessoa no dia-a-dia e têm o poder de criar mais stress do que a maioria das fontes externas de stress, que só ocorrem em certas ocasiões.

Vulnerabilidades humanas que criam stress

Vulnerabilidade 1: A FRUSTRAÇÃO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Não suporto quando as coisas não saem do jeito que antecipei."
"Se não for deste jeito, não quero."
"Prefiro não ir se não for onde escolhi."

Vulnerabilidade 2: A PRESSA

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Não me faça perder tempo."
"É um desaforo me fazer esperar deste jeito."
"Quando eu me atraso, fico extremamente irritado."

Vulnerabilidade 3: A SOLIDÃO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Não agüento ficar o fim de semana sem ver os amigos (namorado/a etc)."
"Tenho angústia de ficar só em casa."
"Só vou para casa depois que minha mulher chegar em casa."

Vulnerabilidade 4: AO TÉDIO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Todo relacionamento que tenho fica chato depois de algum tempo."
"Gosto do agito, de adrenalina, não gosto de repetir programas."
"Não gosto de coisas monótonas, repetitivas, me dão nervoso."

Vulnerabilidade 5: A SOBRECARGA DE TRABALHO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Quando tenho muitos projetos para fazer fico até desnorteado."
"Não consigo trabalhar bem se sei que tenho uma pilha de coisas para fazer."
"Trabalhar todo dia até tarde sem descanso? De jeito algum, não agüento."

Vulnerabilidade 6: A ANSIEDADE

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Na véspera de algo importante, já fico com muita angústia, mesmo que saiba o que fazer."
"Sempre que vou fazer algo novo ou conhecer gente nova me dá uma confusão na cabeça e demoro para me situar."

Vulnerabilidade 7: A DEPRESSÃO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Me dá desânimo pensar em enfrentar certas coisas, pois sei que minha energia é pouca."
"Para quê batalhar tanto se nada tem graça?"

Vulnerabilidade 8: A RAIVA

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Vivo à mercê de qualquer um que me irrite, pois fico com muita raiva e perco o controle."
"Não gosto de ter muito contato com gente, pois sei que vão fazer algo que me dará raiva."

Vulnerabilidade 9: A PENSAMENTOS DISTORCIDOS

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Todo mundo quer tirar vantagem de todos, por isto não se pode confiar em ninguém."
"Quem teve infância ruim nunca vai ser feliz."
"Essa pessoa nasceu neste Estado? É malandro."

Vulnerabilidade 10: AO PERFECCIONISMO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Tenho certeza de que vou encontrar erros neste relatório. Faça de novo antes de eu ler."
"Tenho que olhar tudo, pois ninguém aqui faz nada direito."
"Não dá para tirar férias, não confio em ninguém para fazer meu trabalho."

Vulnerabilidade 11: A APROVAÇÃO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Tenho que fazer tudo certinho, pois o que vão pensar de mim?"
"Precisei ficar até tarde trabalhando, pois meu chefe ia ficar chateado se soubesse que tinha que ir ao dentista logo depois do trabalho."

Vulnerabilidade 12: AO NEGATIVISMO

Verbalizações típicas de quem a tem:

"Cuidado, esse namoro pode não dar certo."
"A laranja está bonita, mas deve estar azeda."

É possível reduzir ou eliminar uma fonte interna de stress?

As vulnerabilidades mencionadas diferem em sua natureza, mas têm em comum um veículo que as leva do estado latente, no qual existem dentro do ser humano, para o pico do stress e para a ação prejudicada: o pensamento. A mudança de pensamento tem na área da Psicologia o nome de "restruturação cognitiva", pois objetiva mudar, reformular as cognições que possam estar criando dificuldades. Na área do stress, temos percebido que a maioria das vulnerabilidades são adquiridas através de práticas parentais que não favoreceram o desenvolvimento de resistência ao stress, mas mesmo aquelas que fazem parte de uma diátese constitucional ficam menos pronunciadas quando se fortalece o indivíduo através da aquisição de estratégias de enfrentamento.

Tendo em vista que pelo menos parte das vulnerabilidades pode ter sido aprendida e considerando que tudo o que é aprendido pode ser modificado, reinterpretado ou aprendido de novo com uma nova configuração e significado, então há de se concluir que é possível sim reduzir - e muitas vezes até eliminar completamente - as fontes internas de stress, geradoras de vulnerabilidades do ser humano. É neste aspecto que a terapia cognitivo-comportamental atua no tratamento dos fatores internos geradores do stress emocional.

Disponível em: http://www.estresse.com.br/